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Nicarágua e o ladrilho hidráulico, uma tradição centenária

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detalhe de um piso de ladrilho hidráulico (imagem obtida no Pinterest)

Coloridos, duráveis, ecológicos, resistentes e feitos à mão, com tantas qualidades, é raro encontrar alguém que não seja um admirador das sedutoras geometrias deste material secular. O ladrilho hidráulico é certamente um daqueles materiais unânimes entre os críticos especializados e o gosto popular, algo muito raro quando o assunto é arquitetura e interiores. Em cidades coloniais espanholas, e na nicaraguense Granada em particular, logo ao chegar é possível perceber onipresença desse nobre material. Superfícies revestidas com seus desenhos modulares formando arabescos podem ser notadas em calçadas, pátios, salões e passeios, isto é, sua aplicação é generalizada. O que eu não sabia ainda era a relação íntima que a cidade guardava com este material.

O ladrilho hidráulico é um tipo de revestimento feito artesanalmente, à base de cimento, utilizado sobretudo em pisos. As origens do material remontam a ocupação moura na península ibérica, mas sua utilização moderna ocorreu em meados do século XIX na Catalunha, embora existam versões atribuindo este pioneirismo à empresas francesas ou inglesas. No final do século XIX, a região de Barcelona era uma das principais produtoras mundiais e não tardou para que o ladrilho hidráulico atravessasse o Atlântico rumo às ex-colônias espanholas. A primeira fábrica latino-americana foi instalada no México, mas foi em Havana que esta indústria mais prosperou, em 1902 foi inaugurada lá a maior fábrica do mundo até então. Na Nicarágua, ao que tudo indica, essa história tem Granada como protagonista.

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ruas de Granada (foto do autor)

Conhecer uma cidade pressupõe se perder por suas ruas para então se achar. Essa é uma das melhores maneiras de conhecer Granada, sobretudo para alguém – estrangeiro como eu – que tinha como missão profissional prospectar fornecedores para uma obra que ainda não tinha iniciado. Um dia, nessas andanças, após me desviar da Calle Atravesada em direção ao Lago Cocibolca através da Calle Santa Lucia, me deparei com uma discreta fachada – como a maioria lá – cuja a porta entreaberta e uma modesta sinalização não deixavam dúvidas: estava na frente de uma fábrica de ladrilhos, “Ladrilleria Favilli” se lia na parede à esquerda da porta.

Granada é uma das mais antigas cidades coloniais americanas, fundada em 1524, é também conhecida como “La Gran Sultana” ou a “Paris da Centro-América”. A ex-capital da Nicarágua possui um rico patrimônio histórico e arquitetônico e até hoje é um dos principais centros urbanos da terra de Sandino e Ruben Darío. Não é de se estranhar, portanto, a opção do italiano Mario Favilli, um amante da arquitetura e do design, de escolher como refúgio de sua Pisa, conflagrada pela Primeira Guerra esta cidade centro-americana. Favilli trouxe em sua bagagem não somente pertences pessoais de um deslocado da Guerra, mas também duas prensas hidráulicas – essenciais para a fabricação dos ladrilhos – e em 1915 estava instalada à Calle Santa Lucia a Ladrilleria Favilli.

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Fachada da Ladrilleria Favilli (Facebook Ladrilleria Favilli)

Logo ao entrar na fábrica nos deparamos com amostras das peças e rapidamente percebemos que elas são familiares, reconhecemos os desenhos e cores já vistos em outros locais da cidade. Mais adiante começa a linha de produção onde as prensas centenárias podem ser vistas e foi onde percebi a simplicidade do ambiente refletindo a forma genuína da técnica de produção do material. O ladrilho hidráulico, ao contrário do cerâmico, possui necessidades energéticas de produção relativamente baixas, não são necessários fornos ou grandes tensões elétricas.

A produção é praticamente manual, as peças são feitas uma a uma através da adição de cimento e aditivos de cor depositados em moldes metálicos. Os desenhos se dão pela deposição das diferentes misturas de cores em moldes conformados de cobre, essa característica garante que a cor esteja na “massa” do material, e não superficialmente impressa como no caso da maioria das cerâmicas, o que garante uma maior estabilidade da peça frente à abrasão, isto é, o desenho não se desgasta. Feita essa massa com cada cor em seu espaço, o molde metálico interno é retirado e o ladrilho vai para a prensa somente com o molde de borda. A prensa retira o excesso de umidade e posteriormente a peça é cuidadosamente depositada para sua cura, onde é convenientemente hidratada para ser posteriormente depositada até sua cristalização total. O resultado final são peças, em geral quadradas, de tamanhos que vão de 10x10cm até 35x35cm, com um custo médio por peça de C$ 35 córdobas, pouco mais de US$ 1 dólar.

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A prensa centenária, uma das principais ferramentas para a produção  (Facebook Ladrilleria Favilli)

A tradição do ladrilho “Nica” (o gentílico mais utilizado pelos locais) não pára por aí, nem a influência de Granada. Desta vez, no entanto, a história tem mais a ver com uma “start up” e o personagem não é um estrangeiro que escolhe a Nicarágua, e sim um nicaraguense que resolve emigrar. Em 2001, no porão de sua casa na cidade de Los Angeles, o jovem “nica” Marcos Cajina construiu uma prensa para desenvolver ladrilhos e sua motivação para entrar neste universo surgiu justamente de uma viagem que ele realizara para a cidade de Granada. Marcos ficou fascinado com o papel central que esse material ocupava na cidade e sobretudo com sua beleza e longevidade. Durante os anos seguintes, Cajina desenvolveu estudos práticos para a produção e realizou viagens para o estudo das origens do material na Europa, e finalmente, em 2004 foi fundada a Granada Tiles, com sede comercial em Los Angeles e produção centralizada em Manágua, Nicarágua.

Tomei conhecimento da Granada Tiles da mesma forma que a Ladrilleria Favilli, de forma casual: sabendo de meu ofício na cidade, uma moça que trabalhava lá me apresentou a empresa e passei a pesquisar sobre ela. Rapidamente percebo a grande qualidade dos produtos desse fornecedor: as releituras de padrões consagrados combinados ao ineditismo de muitos desenhos autorais resultam em padrões que conservam a tradição agregando um tempero de modernidade.

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forma do ladrilho (facebook Ladrilleria Favilli)

O grande mercado da Granada Tiles são os Estados Unidos, apesar de suas vendas também serem significativas na Nicarágua. Nos EE.UU, onde já possui uma marca relativamente consolidada, a empresa figura entre os fornecedores mais respeitados com direito a citação no New York Times. A empresa também marca presença em obras de cafés, lojas e spas de Seattle a Nova York, além de parcerias com importantes designers e arquitetos locais, fazendo dela uma das raras empresas de origem nicaraguense a prosperar nas terras do tio Sam.

Favilli e Granada Tiles são duas facetas de uma tradição que se renova e sobrevive neste pitoresco país da América Central, cujas raízes encontram-se em Granada, a cidade que inspira e também produz esse fantástico material, de baixo consumo e tecnologia acessível.

Nos anos recentes o ladrilho hidráulico vem experimentando um renascimento, e hoje, já pode ser considerado uma das grandes tendências em interiores mundo a fora. O seu uso, além de representar uma conquista em termos ecológicos, é também testemunho e incentivador de uma necessária e desejada integração das Américas, Europa e Oriente.

Links:

Granada Tiles

Ladrilleria Favilli

Tile gains foot all over – NYT

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Encaustic cement tiles in Nicaragua, a century-old tradition

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detail of a cement tile floor (Pinterest)

Colorful, durable, eco-friendly, durable and handmade with so many qualities, it´s difficult to find anyone who´s not a fan of this secular material geometries. Hydraulic cement tiles are certainly one of those materials which are unanimous among critics and popular taste, something very rare when the subject is architecture and interior design. As soon as you arrive in the colonial city of Granada, Nicaragua (as many spanish colonial cities) is easy to perceive the omnipresence of this noble material. Sidewalks, patios and halls are covered with the modular designs, often revealing complex arabesques, can be seen everywhere, in Granada its application is widespread. What I did not know yet was the intimate relationship that the city kept with this material.

The hydraulic cement tile is a type of handmade floorcovering, cement based, used mainly in floors, but also in walls. The material origins date back to Moorish occupation in the Iberian peninsula, but its modern use took place in the middle of the 19th century in Catalonia, although there are versions attributing this pioneering to French or English companies. At the end of the 19th century, Barcelona’s region was one of the main producers in the world, and it was a matter of time to the cement tile discover the former Spanish colonies. The first Latin American factory was installed in Mexico, but it was in Havana that this industry prospered, in this city was installed, in 1902, the largest factory in the world until then. In Nicaragua, it seems, this story has Granada as the protagonist.

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street in Granada (photo by author)

 

Getting in touch with a city is getting lost in its streets, to then, find yourself again. This is one of the best ways to know Granada, especially for someone – a foreigner like me – who had a professional mission in the place: look for suppliers for renovation that hadn’t yet started. One of these days, on those journeys, after crossing Calle Atravesada towards Lago Cocibolca through Calle Santa Lucia, I discover a humble facade – like most of them – which had a modest sign where it was written “Ladrilleria Favilli” (something like “Favilli Brickwork”), it left me no doubt: I was in front of a tile factory.

Granada is one of the oldest colonial Central American cities, founded in 1524, is also known as “La Gran Sultana” or “Paris of Central America”. The former capital of Nicaragua has a rich historical and architectural heritage and nowadays is one of the main urban centers of Sandino’s land. It’s easy to understand, therefore, Mario Favilli’s choice, this italian from Pisa, was a architecture and design lover, and as a refugee from First World War choose this Central America town to live in. Favilli brought in his luggage not only his personal belongings, but also two hydraulic presses – essential for the manufacture of tiles – and in 1915 Ladrilleria Favilli was installed on Calle Santa Lucia.

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Tiles samples in Favilli ( Ladrilleria Favilli’s Facebook)

Soon as we enter the factory we pass by the different samples and models of Favilli’s tiles and realize how familiar they are, we recognize the drawings and colors already seen in other places of the city. Further on, begins the production line where centenarian presses can be seen and it’s where I perceived the simplicity of the factory’s environment reflecting the genuine way of the production techniques. Hydraulic cement tiles, unlike ceramic tiles, had low energy production needs, no ovens nor huge electrical supply is required.

The production is almost totally manual, the pieces are made one by one through the addition of cement and color additives deposited in metal molds. The designs are based on the deposition of the different color blends in copper shaped molds, this ensures that the color is in the “core” of the material, and not superficially printed as in the case of most ceramics, which guarantees a greater endurance of the designs. Once each color is in its space, the inner copper mold is removed and the tile goes to the press only with the border mold. The press removes the moisture excess and then the piece is carefully placed for its cure, where it is conveniently hydrated to be subsequently deposited until its total crystallization. The final result is generally square pieces ranging from 10x10cm to 35x35cm, with an average cost per piece of C$ 35 cordobas, just over US$ 1.

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Man at work in Favilli ( Ladrilleria Favilli’s Facebook)

The tradition of “Nica” tiles (how the locals call themselves)) does not stop here, nor the influence of Granada. This time, however, the story has more to do with a “start up” and the main character is not a foreigner who chooses Nicaragua, but a Nicaraguan who decides to emigrate. In 2001, in the basement of his home in the city of Los Angeles, the young “nica” Marcos Cajina built a press to develop tiles and his motivation to enter this universe came precisely from a trip he had to the city of Granada. Marcos was fascinated with the central role that this material plays in the city and especially with its beauty and longevity. During the following years, Cajina developed practical studies for the production and made several trips for the study of the origins of the material in Europe, and finally, in 2004 the Granada Tiles was founded, with commercial headquarters in Los Angeles and production plant in Managua, Nicaragua.

I’ve got in touch with Granada Tiles in the same casual way as Ladrilleria Favilli: knowing about my duty in the city, a young lady who worked there introduced me to the company after that I started researching about it. I quickly realize the great quality of their products: the renewal of traditional patterns combined with the novelty of fresh new designs, and as the result we have patterns that preserve tradition also adding a taste of modernity.

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Cement tiles, a trend in interior design (Pinterest photo)

The main market of Granada Tiles is US, although its sales are also significant in Nicaragua. In the US, where they already have a relatively consolidated brand, the company is among the most respected suppliers, New York Times mentioned them in a recent article. The company also has its designs in cafes, shops and spas from Seattle to New York, as well as partnerships with leading designers and local architects, making it one of the rare Nicaraguan companies to thrive on Uncle Sam’s land.

Favilli and Granada Tiles are two facets of a tradition in transition that renews and survives in this picturesque country of Central America, whose roots are found in Granada, the city that inspires and also produces this low consumption and low-tech material.

In recent years encaustic cement tiles are experiencing a renaissance, and today, it can already be considered one of the great trends in interiors world-wide. Its use, in addition of representing an achievement in ecological terms, is also testimony and lead actor of a necessary and desired integration of the Americas, Europe and the Eastearn parts of the globe.

 

Links:

Granada Tiles

Ladrilleria Favilli

Tile gains foot all over – NYT

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Criei este blog com objetivo de divulgar meu trabalho. Para isso separei os cases dos últimos dez anos nas categorias: varejo, marcas, produtos, estandes e textos.

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A seção dos cases de varejo já está completa, você pode acessá-la aqui.

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